s quase 800 pessoas que devem se candidatar ao cargo de prefeito, vice e vereador este ano em Campinas estão obrigados a apresentar na Justiça Eleitoral a certidão negativa de improbidade administrativa. O documento passou a ser exigido após a aprovação da Lei da Ficha Limpa, que será aplicada pela primeira vez nas eleições municipais no Brasil. Anteriormente, os candidatos eram obrigados a apresentar apenas a certidão criminal. A portaria foi assinada pelo juiz eleitoral de Campinas, Nelson Augusto Bernardes, e passa a valer para todas as inscrições no Município com prazo para o registro até 5 de julho.
De acordo com o magistrado, o candidato que possuir condenações civis poderá ter sua candidatura barrada pela Justiça Eleitoral. “A certidão poderia ser exigida individualmente em cada processo de registro de candidatura. Mas, como a medida vale para todos os pleiteantes, a portaria agiliza o processo. O candidato só terá de procurar o Fórum, pagar uma taxa e entregar os documentos na Justiça. São exigências legais e que devem ser cumpridas”, afirmou.
A Lei da Ficha Limpa surgiu de um apelo popular no Brasil para melhorar o perfil dos candidatos a cargos eletivos. O documento com 1,3 milhão de assinaturas foi entregue no dia 29 de setembro de 2009, ao então presidente da Câmara dos Deputados e hoje vice-presidente da República, Michel Temer. Quatro anos depois, a lei passa a valer efetivamente no Brasil.
Em 2010, a proposta foi colocada em prática, mas gerou incerteza sobre sua validade. Vários candidatos recorreram de suas impugnações na Justiça. Um ano depois da disputa eleitoral, a incerteza provocada pela lei ainda gerava mudanças nos cargos. Em março de 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF) chegou a derrubar a validade da norma para as eleições daquele ano.
No começo deste ano, o STF decidiu que o Ficha Limpa é constitucional e que valerá para a eleição municipal de outubro.
O STF decidiu que os condenados criminalmente e por improbidade administrativa, em decisões colegiadas (sentenças proferidas por mais de um juiz); que tenham tido as contas rejeitadas por órgãos de controle (TCE, TCU); que tenham renunciado ao cargo para evitar a cassação ou sido cassado, ficarão impedidos de se candidatar às eleições este ano. A corte entendeu que a lei se aplica aos reús que já tenham sido condenados, mas o impedimento ou não do candidato será avaliado pela Justiça Eleitoral somente no momento do registro candidatura.
Reclamações
Os dirigentes partidários se queixam da burocracia para conseguir a certidão na Justiça. Segundo informações repassadas por presidentes de legendas em Campinas, a certidão negativa de improbidade administrativa custa R$ 14,90 e requer que o candidato vá em três pontos diferentes na cidade para conseguir o documento. Os pré-candidatos também reclamam da burocracia para registrar a candidatura e da falta de informações nos cartórios eleitorais.
Políticos estão sob a ameaça de lei
Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), políticos condenados por praticar crimes podem ter seus registros rejeitados pela Justiça em função da aplicação da Lei da Ficha Limpa. O vereador da Câmara de Campinas Petterson Prado (PMDB); o ex-prefeito de Paulínia Edson Moura (PMDB); o atual prefeito de Vinhedo, Milton Serafim (PTB), e o ex-prefeito de Hortolândia Antonio Dias da Silva (PDT) estão na lista dos ameaçados.
Prado foi condenado em 2a. instância pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) por improbidade administrativa. O vereador já havia sido condenado criminalmente, em 2007, a seis anos e oito meses de prisão em regime semi-aberto pelo crime de concussão — extorsão praticada por funcionário público no exercício de suas funções. O vereador não retornou às ligações da reportagem até o fechamento desta edição.
Milton Serafim (PDT) foi preso duas vezes por acusação de extorsão, formação de quadrilha e sonegação fiscal. Serafim foi condenado pelo TJ a devolver R$ 5,5 milhões, supostamente pagos por empresários que necessitavam da aprovação de loteamentos na cidade e foi declarado inelegível até 2014. No entanto, de acordo com sua assessoria, ele ainda possui um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que impediria o encerramento da decisão pela segunda instância. Serafim é candidato à reeleição e exerce o terceiro mandato.
Antonio Dias foi condenado por superfaturar a obra de construção da Estação de Tratamento de Água (ETA) e ficou inelegível entre 2002 e 2007. O ex-prefeito não foi localizado para comentar o assunto.
Já Edson Moura foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) por improbidade administrativa. Moura é candidato às eleições este ano, e um de seus advogados, Arthur Freire, disse anteriormente que vai “questionar judicialmente” a decisão.
A vereadora de Campinas Leonice da Paz (PDT) chegou a ter sua candidatura ao cargo de deputada estadual em 2010, barrada em função da Lei da Ficha Limpa. A parlamentar foi condenada por compra de votos em 2004 e acusada pelo Ministério Público (MP) de ter doado cestas básicas, brinquedos, holofotes e dinheiro para os moradores do conjunto habitacional Edivaldo Orsi, no Jardim San Martin, em troca de votos. Leonice foi eleita em 2004 com 3.921 votos, perdeu seu mandato em 2006, em razão deste mesmo processo, e foi reeleita pelos campineiros nas eleições municipais de 2008. A vereadora disse ontem que já tirou sua certidão criminal e de improbidade e que não deve mais nada à Justiça. Leonice será candidata à reeleição este ano.